VALOR DE UMA MULHER

06-04-2010 22:47

Aquela era uma prisão enorme, construida há poucos anos. Ali viviam na altura, uns 600 reclusos mas poderia receber muito mais (...).

Eu trabalhava ali e nesse momento encontrava-me na cantina de um dos pisos do Bloco 6.

Junto de mim, sentados à volta de uma mesa rectangular onde habitualmente tomavam as refeições, estavam oito reclusos, todos eles conhecidos como toxicodependentes. Tínhamos combinado uma reunião naquele dia e conversamos sobre o valor das coisas.

Que valor teria aquilo que observávamos à nossa volta? Como se avaliava?

Começámos pela esferográfica que eu tinha na mão. Que valor teria? Não foi dificil imaginar o seu valor comercial. Do seu preço enquanto nova haveria a retirar o tempo de uso, a tinta gasta entretanto ou, quem sabe, a ponta roída... E como se avaliava uma casa? Alguns deles tinham experiência na construção civil e as opiniões não faltaram: a dimensão da casa, a sua localização, os acabamentos, os acessórios..Pouco depois falávamos de automóveis e os critérios de avaliação eram igualmente claros.

Perguntei então: "E uma pessoa, como se avalia?" Instalou-se um silêncio apreensivo... Começaram por dizer que seria muito difícil determinar o valor de uma pessoa. Finalmente um deles deu um parecer:"Se uma pessoa for toxicodependente vale menos...". Os outros não contestaram. Era assim que eles se sentiam.

Por vezes, acontece depararmo-nos com questões inquietantes. Sobretudo quando nos sentimos menos valorizadas ou respeitadas. Quem sou eu? Qual é, de facto, o meu valor?

Há um versículo na Bíblia que faz uma avaliação interessante. "Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de rubis".

Provérbios 31:10                         

Recebi uma carta de uma grande amiga que reside em Macau. Há algum tempo que não tinha notícias dela. Abri o envelope ansiosamente e vi que continha duas coisas: um cartãozinho com umas palavras amigas e uma lembrança deferente de qualquer outra que eu recebera antes: um minusculo  saco de plástico com seis pedrinhas de um vermelho intenso. Eram rubis pequenos.

Apreciei muito e guardo-os preciosamente. O rubi é de um vermelho transparente. O seu nome deriva do termo latino Ruber, que significa vermelho. As maiores jazidas de rubis conhecidas hoje situam-se no  sudoeste (Birmânia, Tailândia e Sri Lanka) e junto ao rio africano Umba (Quénia e Tanzânia). Classifica-se na família dos corídons, umas das substâncias mais duras. De facto, é o mineral mais duro depois do diamante e durante centenas de anos foi considerado a pedra mais preciosa de todas. Não admira, pois, que na Bíblia seja referido como termo  comparativo quando se trata de considerar algo de grande valor. E a mulher virtuosa é colocada a esse nível.

O meu valor

Demanhã levanto-me e preparo-me para mais um dia. Olho-me ao espelho. Diante de mim está um rosto que me mira fixamente. É um semblante que me acompanha desde sempre, que uns dias acho mais interessante que outros, que as pessoas dizem mais parecido com o pai ou com a mãe, combinação misteriosa de genes a que, às vezes, dou um toque diferente num penteado novo.

Quem sou eu?

É natural que o meu sentido de valor pessoal não seja sempre o mesmo. Há factores diversos que alimentam ou que fragilizam a auto-estima. Têm a ver com a minha relação com os outros e com o meu próprio desempenho. Com aquilo que sou e que gostaria de ser. Contudo o meu real valor como pessoa não se altera, mesmo naqueles dias difíceis em que possa parecer tão reduzido. É sempre o mesmo valor.

De facto, só há uma pessoa que pode determinar o meu verdadeiro valor. É quem me criou. Mais ninguém. Só ela sabe o que investiu em mim, as potencialidades que aí depositou, que propósitos delineou para a minha vida, prque motivo me fez existir. É DEUS. E essa riqueza pessoal, única e inalineável que comporta um leque vasto de possibilidades de crescimento pessoal, não se altera quando estou cansada, quando me sinto doente, menos atraente ou menos amada.

Não depende do facto de ser abraçada, beijada, acariciada, apreciada, elogiada. Ou de ser, ou ter sido, desprezada, ridicularizada, deixada para segundo lugar, despedida.

O meu sentido de valor pessoal poderá ser afectado, positiva ou negativamente por isso. Contudo, o meu valor autêntico, decorre do facto de ser amadoa por Deus e esse não se altera.

Talvez eu nunca venha a adquirir uma herdade, a plantar uma vinha, a usar a roca ou o fuso, como a mulher virtuosa descrita em Provérbios capítulo 31. Vivo noutros tempos, com ritmos e exigências diferentes. Mas em mim continua a haver o mesmo potencial para um valor superior ao de rubis.

Sei que nas mãos de Deus estarei segura e aí poderei ver o Seu propósito ser cumprido na minha vida.

Sejam quais forem as circunstâncias, as oportunidades, as adversidades, Ele continuará atento e operante.

É Ele quem me dá o verdadeiro valor.

 

Bertina Coias Tomé  (artigo publicado na revista Mulher Criativa Out/Dez 2005)

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